GRUPO RETINA - UM NOVO OLHAR PARA A VIDA

RELATÓRIO SOBRE O 16° CONGRESSO MUNDIAL DA RETINA INTERNACIONAL

Stresa – Itália de 22 a 28 de Junho de 2010.

 

Parabéns à RETINA ITALIA, aos organizadores do 16° Congresso Internacional da Retina que aconteceu na linda cidade de Stresa, nas margens do lago Maggiore, no norte da Itália. O formato do Congresso foi:

  • Duas reuniões do Management Committee (Comitê Gestor da Retina Internacional (RI))
  • Um dia para o Continuing Education (Educação Continuada)
  • Um dia para a Assembléia Geral da RI
  • Dois dias de Congresso.

Os artigos do programa da Educação Continuada foram feitos por vários membros da Retina Internacional mostrando aspectos relevantes de seus trabalhos. Uma das apresentações mais importantes foi feita por Avril Daly da Irlanda sobre a importância do aumento da tecnologia assistiva em saúde.
A Assembléia Geral adotou uma importante emenda que permitirá que haja mais de um membro em um único país, fato de um especial significado para países multilingüísticos e multiculturais muito populosos como a China.
Foram aceitos quatro novos candidatos: Retina Índia, FARP da Argentina, Retina Pigmentar ASBL da Bélgica e Associação RP de Taiwan. A Fundalu RP do Chile foi aceita como Organização interessada.
O Congresso foi realizado em dois dias com apresentações excelentes feitas pela nata dos pesquisadores internacionais da retina. Foram 62 artigos, 53 palestrantes em 03 sessões paralelas com 600 participantes de 23 países.

PROFESSOR GERALD CHADER
Secretário do SMAB - Comitê Científico da Retina Internacional e também Membro da Retina AS SMAB. O professor Chader recebeu no Congresso um Certificado de Reconhecimento da Retina Internacional, pelos valiosos estudos científicos desenvolvidos para o tratamento e cura das doenças degenerativas da retina.

Durante sua palestra, ele explicou que os estudos para os novos tratamentos das degenerações da retina se classificam em 02 categorias:

  • Quando a maioria ou todas as células fotorreceptoras não funcionam ou estão mortas:
    Neste caso, nós poderíamos usar os tratamentos que substituem as células fotorreceptoras mortas ou, pelo menos, substituir a sua função na retina – Terapias de Substituição.
  • Quando algumas células fotorreceptoras ainda estão vivas:
    Aqui, poderemos usar os tratamentos que prolongam a vida dos fotorreceptores e fazê-los funcionar melhor - Terapias de Resgate.

 

A - TERAPIAS DE SUBSTITUIÇÃO


1. APARELHOS ELETRÔNICOS – A RETINA ARTIFICIAL
O Professor Eberhart Zrenner da Alemanha informou sobre o progresso do implante retiniano. O microchip tem 3mm de diâmetro e 50 micras de espessura. Há 1500 microfotodiodos no chip que é implantado abaixo da retina. O microprocessador é implantado atrás da orelha e a ligação com a fonte de alimentação da alça periocular é sem fio.O Professor Zrenner disse que teve sucesso nos resultados com 12 pacientes que conseguiram ler letras grandes (4cm),  combinação de palavras e a distinção de vários objetos como xícara, colher, fruta, etc. O vídeo também mostra um paciente percebendo a presença de duas pessoas em uma sala e conseguindo reconhecer a menor. Ele forneceu formulário para todos os pacientes de todos os países que quiserem mencionar seu interesse em participar das pesquisas.
A empresa “Second Sight” dos EUA que está pesquisando outro chip eletrônico não se manifestou no Congresso da RI, mas sim na Conferência da ARVO que aconteceu nos Estados Unidos em maio. Eles informaram que foram feitos testes em 11 centros com 32 pacientes. Após o implante do aparelho Argus 2, os pacientes conseguiram localizar uma porta, andar sobre uma linha branca e detectar um quadrado numa tela de LCD.

2.CÉLULAS TRONCO
O Professor Robin Ali informou que os fotorreceptores e a função visual foram restaurados em modelos de ratos com degeneração da retina usando célula tronco embrionária. Isso foi mostrado em um vídeo com ratos nadando e percebendo uma plataforma segura. Os ratos encontraram a plataforma mais do que 70% do tempo de avaliação e também melhoraram as respostas visuais no eletroretinograma. A pesquisa estava bem no início do primeiro estágio já que a terapia funcionou somente em ratos jovens e uma fonte mais apropriada de células foi necessária. Eles também precisaram melhorar o número de células que integraram às células da retina.
Oprofessor Ali foi o primeiro pesquisador a fazer terapia de substituição com gene humano nos testes que estão sendo feitos para Amaurose Congênita de Leber.

3. OPTOGENÉTICA:
A optogenética é um novo campo de pesquisa e é ele que controla o “ligar e desligar” dos neurônios, em outras palavras, é o que desencadeia ou interrompe certas ações dentro de uma célula. Em degenerações da retina, embora os bastonetes e cones morram, outras células como as ganglionares e bipolares permanecem vivas. Com a utilização da biologia molecular, podemos inserir uma proteína fotosensível (PHOTOSWITCH) para as células restantes e assim torná-las capazes de reagir aos sinais de luz.
Um photoswitch é uma proteína que faz uma célula viva reagir eletricamente a um sinal de luz (como tomadas ópticas).
Prof. Botond Roska apresentou sua nova pesquisa a qual foi publicada na revista SCIENCE no dia 24 de junho de 2010. Seu trabalho retrata a transferência genética do canal da rodopsina, uma proteína sensível à luz, derivada de algas, para as células restantes criarem fotosensibilidade.

  • O trabalho do Prof. John Flannery nessa área não foi mostrado no Congresso, mas sim na ARVO. O grupo está usando um AAV para liberar a luz projetada no receptor glumato ativado (LiGluR)  para a retina em diferentes modelos de ratos de Retinose Pigmentar (RP). O LiGluR  integrou-se com sucesso nas membranas celulares ganglionares da retina e eles detectaram reação à luz. Esta técnica é promissora no tratamento da retina, onde as células fotorreceptoras sofreram danos ou estão degeneradas, mas as células ganglionares da retina têm que estar ainda intactas.

O Professor Chader disse que o trabalho com photoswitches está ainda começando. Somente um ou outro trabalho está mais adiantado. Os que estão usando comprimento de onda podem causar danos na retina e alguns reagem à luz vagarosamente a ponto de não serem úteis para a visão humana. No entanto, os photoswitches poderão ainda ser funcionais para a visão, se os problemas citados acima forem superados.

 

B - TERAPIAS DE RESGATE
Tratamentos que procuram prolongar a vida e a função dos bastonetes e cones:

1. FATORES DE CRESCIMENTO
A Tecnologia de Célula Encapsulada (ECT) libera fatores de crescimento para a retina. A Dra. Weng Tao falou sobre o estado dos testes clínicos com Neurotech.

  • o efeito do CNTF na RP - Não houve mudança na Acuidade Visual, mas houve menos perda de cones no período do teste.
  • o efeito do CNTF2 na DMRI seca -Foram relatados os resultados dos testes em 51 pacientes. Houve um aumento na espessura da retina, eles mantiveram a acuidade visual quando comparados com o grupo placebo. Necessita mais estudos. Este poderá ser um tratamento para DMRI seca.

2. MODIFICADORES DAS CÉLULAS VISUAIS
Em alguns casos, como na Amaurose Congênita de Leber (LCA), a retina é incapaz de produzir a vitamina A e isso causa uma disfunção na célula fotorreceptora. Se a retina for reabastecida, o processo visual poderá ser recomeçado e a pessoa talvez enxergue novamente.
Intervenção Farmacêutica: O Professor Rob Koenekoop do Canadá falou sobre a pesquisa com o QLT que foi feita a curto prazo para testar pacientes com Amaurose Congênita de Leber com uma forma oral de 11 cis-retinal. O teste com 3 pacientes durou somente 7 dias, mas todos os 3 tiveram melhora na Acuidade Visual e melhor qualidade de vida. Exemplo: melhoraram a leitura, essa melhora continuou depois que o tratamento cessou. Uma pesquisa mais abrangente está sendo planejada.

3. ANTIOXIDANTES
A importância de suplementos nutricionais nas degenerações retinianas foi ressaltada por vários palestrantes:
Professor Chader: “O uso da nutrição nas degenerações retinianas foi sempre controverso. Deve ser visto com mais seriedade em relação à prevenção ou pelo menos para retardar a degeneração. Os testes clínicos atuais na Espanha mostram bons resultados e novas pesquisas estão sendo planejadas”.

Professor Falsini: “As mutações dos genes levam a apoptose. Os antioxidantes parecem resgatar a função dos cones e recuperar os que permaneceram vivos, retardando o curso da degeneração”.
Professor Theo van Veen: “A morte dos fotorreceptores leva a hiperoxia e ao estresse oxidativo”. Os antioxidantes como o RetinaComplex oferece, sem dúvida, proteção contra o estresse oxidativo.

4. TERAPIA GENÉTICA
Professor Chader: “A terapia de substituição genética é a troca de um gene imperfeito nas células vivas por um novo, uma cópia normal do gene. Esse novo gene sintetizará a proteína perdida e restaurará a função da célula fotorreceptora. A longo prazo tem se mostrado positivos os efeitos  da Terapia Genética em RP em modelos animais, até mesmo em tratamentos que foram feitos em um estágio adiantado da doença, quando a perda das células fotorreceptoras já foi significativa”.
Professora Jean Bennet: Ela falou sobre a terapia de substituição genética no gene RPE65 para a doença Amaurose Congênita de Leber. Os 4 testes internacionais tiveram sucesso na restauração da visão, mas os pacientes mais jovens tiveram melhores resultados. Ela reexaminou 31 pacientes que haviam sido tratados há 3 anos. Houve 2 acontecimentos negativos: um buraco de mácula e um descolamento da retina. A visão melhorou em 28 pacientes. Novos testes foram examinados com doses gradativas tratando pacientes mais jovens, eles também testarão o tratamento no segundo olho dos pacientes.

5. FUTUROS TESTES DE TERAPIA GENÉTICA

  • Distrofia de Stargardt – o projeto Stargen está previsto para começar no final de 2010. Essa pesquisa usará lentivírus para repor o gene ABCA4. A empresa responsável pelo projeto está no processo de manufaturar o material e conduzir os testes toxicológicos.
  • Amaurose Congênita de Leber - Uma outra forma de terapia gênica para Amaurose Congênita de Leber – LCA5, envolve o gene lebercillin. Espera-se que os testes clínicos sejam feitos em breve.
  • Síndrome de Usher – O projeto Oxford Biomedica Ushstat que está usando o lentivírus para repor o gene MY07 no tipo Usher 1B está também em estágio avançado.
  • Gene MERTK para o início precoce de RP – a Prova do Princípio tem sido determinada e os vetores virais estão sendo produzidos.
  • Trabalhos pré-clínicos de outras formas de Amaurose Congênita de Leber tais como o GUCY2D e RPGRIP1 continuam sendo avaliados.
  • Retinoschisis - Ligado ao X é uma situação onde a Retina se divide. A companhia AGTC está testando a terapia genética em modelos primatas, mas dificuldades cirúrgicas precisam ser resolvidas.
  • Acromotopsia – O resgate dos genes usando Adeno Virus Associado está sendo investigado para 03 genes – o GNAT2, CNGA3, CNCB3 em 2 modelos de ratos e 1 cachorro. A Acuidade Visual, a sensibilidade ao contraste e a sobrevivência dos cones melhoraram.

6. RESGATE/LIBERTAÇÃO DE DROGAS SISTÊMICAS
O Prof Peter Humphries da Trinity College da Irlanda teve resultados promissores na abertura da barreira hemato retiniana levando os agentes terapêuticos para conter a degeneração. Esta terapia é muito nova e bem promissora.

Sobre DMRI - DEGENERAÇÃO MACULAR RELACIONADA À IDADE
Excelentes trabalhos foram expostos sobre a DMRI por vários palestrantes como Professor Joe Hollyfield, Alan Bird e Johanna Seddon. O Professor Joe Hollyfield é o co-presidente do RI SMAB e também foi recebeu o certificado de reconhecimento pela Retina Internacional.

Os fatos incontestáveis que surgiram no Congresso são que: Natureza e Alimentação combinadas são muito importantes na DMRI e que a genética e fatores ambientais tem papel significativo.
Os indivíduos acima de 55 anos estão no grupo de risco e drusas estão presentes na doença na forma inicial. Certos fatores não são modificáveis como idade e genética, mas outros fatores também são modificáveis como: dieta, ingestão de nutrientes, fumo, índice de massa corporal, nível do colesterol e hipertensão.
A Dra. Seddon aconselhou os pacientes com DMRI a incluírem em sua dieta:

  • Uma porção de espinafre de 5 a 6 vezes por semana
  • Óleo de peixe 3 vezes por semana para assegurar o ácido graxo Omega 3
  • Alimentos ricos em Vitamina D, E e C
  • Beber chá verde (rico em antioxidantes)

Fumar 25 cigarros por dia aumenta o risco de DMRI em 2,4 vezes.
“Associações entre genes e fatores modificadores como dieta e suplemento, fumo e aumento de peso têm mostrado que esses fatores podem alterar a suscetibilidade genética e juntos podem levar à DMRI” – Dra. Johanna Seddon.

TRATAMENTOS PARA DMRI
O resultado dos testes comparativos entre Lucentis e Avastin para o tratamento da DMRI exudativa estará disponível no final de 2010 e nós estamos esperando ansiosamente por eles.
Por volta de 700 outros tratamentos estão sendo examinados tais como:

  • Retinostat para inserir os genes Antivascular, Angiostatin e Endostatin para DMRI e retinopatia diabética
  • VEGF TRAP
  • ACU 4429 inibidor da DMRI seca
  • Pazopanib gotas para DMRI exudativa

ESTIMATIVAS

  • As doenças retinianas herdadas são a maior causa da deficiência visual e cegueira em crianças e jovens adultos no mundo ocidental. A prevalência agregada deles é 1 para 2.000 indivíduos – Dr. Frans Cremers
  • A administração de AAV foi bem tolerada e todos os pacientes mostraram melhora nas medidas objetiva e subjetiva da visão. Vários pacientes não são mais considerados cegos legalmente. O progresso maior foi observado em crianças, todas ganharam visão ambulatorial. Dra. Jean Bennet.
  • Os mecanismos de estresse oxidativo têm um papel crucial na neuro-degeneração. Pesquisa usando radical livre, incluindo combinações de antioxidantes, tem mostrado um atraso na morte da  célula fotorreceptora  de  vários modelos  animais  na RP e  em breve, estudos clínicos em humanos serão completados. Dr. Theo van Veen.
  • Uma modulação barreira tem sido usada para proteger as retinas de ratos contra a perda da função visual em um modelo de RP dominante. Prof Peter Humphries.
  • RdCVF não consegue somente resgatar os cones, mas também preserva significativamente suas funções. Mostra, portanto, o potencial do RdCVF para preservar a visão dos pacientes. Prof. Jose Sahel
  • A administração do CNTF pela técnica de Célula Encapsulada produziu o aumento da espessura retiniana a longo prazo e estabilizou a acuidade visual, sem sérios problemas, em olhos com atrofia geográfica por DMRI. Dra. Weng Tao.
  • Estudos recentes têm mostrado que, o transplante dos fotorreceptores pode resultar em uma melhora da função visual em modelos de ratos com degeneração retiniana e que é possível produzir células fotorreceptoras de célula tronco embrionária. Professor Robin Ali.
  • Muitos indivíduos (por volta de 70%) com DMRI têm polimorfismo nos genes, que são ou codificados ou ligados às proteínas complementares de algum sistema imune; o dano oxidativo dos lipídios na parte externa da retina, pode ser um sinal de inflamação desses tecidos que almeja o sistema imunológico atacando a mácula. Professor Joe Hollyfield
Em resumo, muito já se sabe sobre as degenerações retinianas herdadas. Especificamente, já se conhece o suficiente para se demonstrar cientificamente a “Prova do Princípio” em modelos animais com degenerações retinianas e que tais intervenções podem ser eficazes e seguras. Baseados nisso, os testes clínicos com humanos que têm essas doenças estão agora acontecendo e com muito mais ainda por vir nos próximos anos.
Nas palavras do Dr. Chader, “os Pacientes e Pesquisadores formam um ótimo time para que os nossos sonhos se tornem realidade”.

Agradecemos a Sra Assia Andrao (Retina Itália) e toda sua equipe por esta excelente conferência.

PRÓXIMOS CONGRESSOS
O próximo Congresso será em Hamburgo, Alemanha de 11 a 15 de julho de 2012.
A Assembléia Geral aprovou por unanimidade a proposta da Retina França para sediar o 18º Congresso Internacional em julho de 2014.
Comecem já a fazer planos para o Congresso de 2012 .

Texto por Claudette Medefindt (Retina Internacional/Retina África do Sul), com tradução de Salete Martins Herance e com revisão de Dra. Juliana Sallum e Maria Julia Araújo.

Representantes do Brasil neste Congresso:
Dra Juliana Sallum – Presidente do Comitê Científico Retina São Paulo/Retina Brasil
Dra Rosane Rezende - Presidente do Comitê Científico Retina Rio/Retina Brasil
Maria Antonieta Leopoldi – Presidente do Retina Rio e Vice-presidente do Retina Brasil – Delegada do Retina Internacional e eleita neste congresso como Membro do Comitê Gestor da RI.
Maria Júlia da Silva Araújo – Presidente do Retina São Paulo - Retina Brasil e Delegada da Retina Internacional